12/05/2017 - 11h48 - Atualizado em 12/05/2017 - 11h49

O Grande Prêmio de Alice no País das Maravilhas

Quatro corridas em 2017 e a competição está mais imprevisível do que nunca, o deixa que até os mais inteligentes engenheiros da MotoGP confusos

Fonte: Mat Oxley - Motor Sport Magazine

Em 1991 Wayne Rainey se referiu ao início da temporada de Grandes Prêmios na Europa, como o inícioda "guerra no chão", porque naquele ano o circo GP chegou em Jerez, logo após o primeiro conflito doGolfo (Pérsico).

Muitos pilotos ainda pensam em Jerez como o lugar onde a corrida pelo título fica real, porque as aberturas de temporada fora-da-Europa podem ser consideradas um pouco sem raízes. Até mesmo Valentino Rossi ainda mantém essa opinião, ou quase. "Não quero dizer de Jerez é o início real do Campeonato, mas..."disse o sete vezes ganhador do GP em Jerez na véspera do 31º GP da Espanha naquela pista.

Rainey falou da guerra no chão como separada do resto do Campeonato porque as pistas europeias são diferentes, porque as equipes trabalham nos caminhões super preparados, em vez de caixas de bagagem de voo, e porque os pilotos passam o fim de semana no paddock.

Bem, isso fazem os pilotos de MotoGP. Eles se deleitam em motorhomes tão brilhantes que machucamos olhos, enquanto os pilotos de Moto2 e Moto3 vão e vêm para dentro e fora do paddock em carros alugados, a menos que possam pagar 2500 euros por semana para ficarem um hotel baseado nos caminhões possuídos pelo ex-vencedor de-GPs-que-virou-DJ Fonsi Nieto.

O paddock europeu ainda é um lugar especial, mas também uma sombra do que já foi anteriormente. Jánão é o parque de camping democrático onde motorhomes milionários ficavam estacionados ao lado dostrailers enferrujados dos amadores. E não é mais cada noite animada pelo cheiro de algumas dezenas de churrascos deliciosos e trilhada sonoramente pelas muitas festas entre pilotos e amigos, celebrando aalegria da vitória ou afogando a tristeza da derrota.

Desculpa, estou muito comovido pela nostalgia e me desviando do tema. O que estou tentando dizer é: os resultados das corridas fora da Europa (flyaways) podem ser um pouco enganadores, então Jerez égeralmente a primeira corrida onde nós podemos ter um olhar apropriado para descobrir o que está acontecendo.

Mas não desta vez. A MotoGP caiu num buraco de coelho no domingo, como Alice no país das maravilhas.Lógica transformada em absurdo, assim como as esperanças de alguns pilotos viraram pó.

Corrida é geralmente um processo lógico de pessoas inteligentes trabalhando ao redor as leis da física.Após cada corrida de MotoGP estes engenheiros irão interrogá-lo em questão de minutos: é por isso que a Honda trabalhou bem em Jerez, a Yamaha não, e assim por diante.

No entanto, não desta vez. Eu vagava atrás dos boxes  no domingo à noite à procura de uma respostapara esta corrida estranha, mas nem um único engenheiro com quem falei (em outras palavras, comquem iapara o que fazia para falar comigo) veio com uma teoria viável para explicar os fatos.

Certamente foi uma corrida estranha. As Yamahas oficiais, que marcaram uma dobradinha no ano passado, não estavam em lugar nenhum. E as Hondas oficiais,  que estavam em nenhum lugar no anopassado, marcaram uma dobradinha. E a Ducati, que geralmente tem um desempenho horrível em Jerez,esteve no pódio, com Jorge Lorenzo sorrindo o maior sorriso que ele já exibiu. A última vez que elesfizeram isso no seco foi em 2009: lá atrás, na época de Casey Stoner.

Você pensaria que Guy Coulon, chefe de tripulação de Johann Zarco na Monster Tech 3 Yamaha, saberia osegredo. Mas nem o francês tinha certeza de porque o piloto dele foi muito melhor do que as Yamahas de fábrica.

"Não posso explicar", deu de ombros Coulon, que é um pouco como Albert Einstein, dizendo ele não pode entender quanto é dois mais dois. "Talvez os pneus. Johann e Jonas (Folger) usaram o pneu  médio dianteiro, mas as outras Yamaha usaram o duro. Johann pode usar um pneu mais macio e uma moladianteira macia porque ele é muito suave nos freios. Mas não acho que o chassis diferentes (a Tech 3 usa chassis 2015/2016 e a Movistar usa os 2017) faz muita diferença, porque todos eles têm geometriasemelhante."

O chefe de tripulação de Cal Crutchlow na LCR Honda, Christian Bourguignon, estava  da mesma forma confuso. "Por que a Honda dominou no que normalmente é uma pista Yamahar? "Eu tenho uma respostaclara" disse ele. "No aquecimento Maverick Viñales foi tão rápido que todos pensavam que ele seria difícil de bater, mas na corrida ele teve dificuldades."

No entanto, Bourguignon tinha algumas teorias. "Algumas pessoas dizem que existem tantosespectadores no circuito, o que leva muita poeira soprada para a pista, mas eu não acredito nisso. Achoque é mais um caso de circuitos curtos como este, onde a corrida de Moto2 tem um monte de voltas, ou seja, eles deixaram um monte de borracha em cada curva, então a faixa perde aderência. Outra razãopoderia ser a temperatura da pista, que era muito mais quente do que em treinos e qualificação".

Quando a corrida começou Dani Pedrosa e Marc Márquez desapareceram nas suas RC213Vs, Viñalesficou sem tração frontal na Movistar Yamaha e seu companheiro de equipe Valentino Rossi não tevenenhuma tração traseira nas curvas à esquerda.

Na verdade, o mistério de Jerez não era realmente um mistério. A MotoGP não caiu tanto num buraco decoelho no domingo, ela caiu em um buraco de borracha.

Jerez sempre foi uma pista de corrida estranha e hiper sensível à temperatura. Pilotos a visitam no inverno, explodem recordes em pedacinhos e, em seguida, retornam no verão e tentam em vão chegar no mínimo perto de seu ritmo anterior.

O recorde de corrida de MotoGP pertence a Jorge Lorenzo e Bridgestone, de 2015, quando elescompletaram a corrida 29 segundos mais rápido que Pedrosa no domingo e 31 segundos mais rápido que Rossi no ano passado. Mas a pista estava 11 graus mais fria há dois anos.

No domingo, a maioria dos pilotos escolheram  o pneu traseiro médio assimétrico, incluindo Pedrosa,Rossi e Viñales. De alguma forma a RCV de Pedrosa tinha tração traseira, enquanto Rossi tinha tanta perda de aderência através das curvas para esquerda que "nós tivemos sorte em terminar".

Rossi encontrou-se em terra de ninguém na escolha do pneu traseiro: o duro era muito duro, assimtambém o lado esquerdo do médio, mas o macio era muito macio. Sua equipe desenvolveu uma combinação de balanceamento de chassi e controle de tração para reduzir os problemas, mas desta vez ocoelho ficou firmemente no chapéu. O que acontece no País das Maravilhas de Alice. Rossi deve estar preocupado.

O domingo de Viñales foi ainda mais curioso: ele comandou o aquecimento, mas foi deixado de lado na corrida por falta de aderência na frente.

"Não tive nenhuma sensibilidade na frente", disse ele. "A Yamaha é geralmente boa em curvas rápidas,mas quase caí três vezes na curva 11 (Curva Alex Crivillé, a primeira de três curvas rápidas para direita no final da volta)".

Então o que estava acontecendo ali? Já sabemos que o Jerez é muito sensível a mudanças de temperatura. Mas havia algo maior em andamento no domingo.

Cada marca de pneu de corrida varia em desempenho de uma pista para outra e até mesmo de um dia para outro, mas o Michelin varia muito mais do que a maioria. Como Rossi disse na noite de domingo,"agora cada pistas de corrida é uma história".

Isto é um pesadelo para os engenheiros e pilotos que querem que o desempenho dos pneus mantenha aconsistência, então não precisam reinventar configurações de ajuste na moto e técnicas de pilotagem de uma pista para a próxima.

"Com o Michelin não é fácil gerenciar cada fim de semana," disse Andrea Dovizioso. "Todo fim de semanaé diferente. A situação nunca é estável, então você deve ser inteligente para gerenciar todas as situações.As coisas estão muito melhores do que no ano passado, mas o caráter é muito semelhante. Todo fim de semana você tem que se adaptar e entender o que está acontecendo. Não é tão fácil, mas é a mesma situação  para todos."

Mas, adivinha? Inconsistência e imprevisibilidade tornam melhores as corridas. O recorde do ano passadode nove vencedores diferentes nunca teria acontecido se uma ou duas equipes tivessem se entendido melhor com os pneus do que os outros. Os pneus continuaram mudando, as motos continuaram mudando, os resultados continuaram mudando.

Os Michelin deste ano são  melhores, mas uma certa quantidade de inconsistência é bom para a corrida,porque as força os pilotos e equipes para pensar por si, adaptando-se a cada nova situação conforme ela surge. Eles nunca podem colocar o equipamento no caminhão depois de uma corrida felizes, com tudoplanejado. Porque eles sabem que terão que começar a fazer as somas tudo de novo quando chegarem àpróxima corrida.

A coisa importante a lembrar é que todos recebem os mesmos pneus. A janela de desempenho máximopode ser estreita, mas cada equipe tem a mesma chance de entrar nela. O fato de que uma equipechegue lá um fim de semana e outro time chegar na corrida seguinte é bom para os fãs: os engenheiros eos pilotos nunca podem relaxar e os fãs nunca podem prever o resultado.

Considere as quatro primeiras corridas de 2017. Os dois pilotos da Yamaha de fábrica subiram ao pódiono Catar e na Argentina, o que deixou algumas pessoas já  prevendo uma vitória fácil de Viñales. Nas mesmas corridas, nem um único piloto da Repsol Honda fez os três primeiros. Em seguida, Márquez ePedrosa terminaram em primeiro e terceiro no Texas e marcaram sua primeira dobradinha em Jerez. AYamaha teve apenas um piloto no pódio na terceira e quarta corridas.

E quem sabe como vai ser em Le Mans? Quem deixou Jerez com sorrisos nos rostos podem ter quetrocar com aqueles que se dirigiram para casa franzindo a testa. Le Mans pode ser 180 graus diferente:tudo dependendo da pista, da temperatura e dos pneus.

O desastre dos pneus da frente de Viñales foi o verdadeiro mistério do domingo. A  temperatura na pistaaumentou de 23 graus no aquecimento  para 41 graus na corrida. É essa a explicação, ou ele recebeu umpneu ruim? Seu ritmo rápido  no teste de segunda-feira sugere que um pneu ruim foi o problema.

Os pneus são feitos em lotes e é impossível manter a consistência perfeita de um lote para outro. E pneusde MotoGP muitas vezes passam por vários ciclos de calor: eles esquentam nas prateleiras específicas e,em seguida, esfriam se não forem utilizados. Este ciclo pode mudar seu caráter de aderência, mas a Michelin assegurou-se de que os pilotos usaram pneus de corrida que não passaram pelos ciclos de calor e frio.

Tudo isso pode ser verdade, mas o fato é que a oferta de pneus da Michelin não correspondeu às condições quentes em Jerez. A janela encolheu muito – alguns pilotos não só a perderam como caíram dela. A boa notícia é que o Jerez será reasfaltada neste verão.

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Classificação,

    PILOTO PONTUAÇÃO
    1 Marc Marquez 129
    2 Maverick Viñales 124
    3 Andrea Dovizioso 123
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esportes,22 Nov